Empresário Alexandre Lafer Frankel lança Housi para reconstruir modelo tradicional do mercado imobiliário

Eram 9h30 de uma quinta-feira ensolarada quando um jovem magro, de tênis, calça jeans e camiseta preta, estacionou seu patinete na porta da sede da construtora e incorporadora Vitacon, na Vila Olímpia, em São Paulo. Com jeitão descolado e sem cerimônia, ele bem que poderia ter saído de alguma startup de San Francisco direto para o bairro que, nos anos 2000, chegou a ser chamado de o “Vale do Silício brasileiro”, dada a quantidade de empresas de internet distribuídas por metro quadrado.

O piloto do patinete é Alexandre Lafer Frankel, 41 anos, fundador e CEO da Vitacon, atualmente uma das companhias mais badaladas do setor imobiliário, conhecida por disseminar no país o conceito de apartamentos compactos e por inovar levando para a habitação conceitos, como tecnologia digital, design, inteligência de espaços e pacotes de serviços para os moradores. Frankel não apenas tem cara de “startupeiro”. Ele próprio foi um, quando criou uma das primeiras empresas de internet do Brasil, a Banana Games, na década de 1990.

Agora ele está de volta à cena com uma nova startup: a Housi, plataforma digital que promete reinventar o processo de locação de imóveis – ou de viver, como prefere o empreendedor. “O conceito que norteia a plataforma é o de casa on demand”, diz Frankel ao Experience Club. “A plataforma proporciona flexibilidade e tira todos os atritos do processo de locação, tanto para o proprietário como para o locatário. E ainda tem uma comunidade de usuários em volta dela e uma série de serviços à disposição do morador”, afirma o empresário, que mora perto da Vitacon e por isso costuma ir para o trabalho de patinete, bicicleta ou a pé.

“O conceito que norteia a plataforma é o de casa on demand” Alexandre Lafer Frankel, CEO da Vitacon

Funcionando em modo beta há oito meses, a Housi é uma spin-off da Vitacon que agora é lançada oficialmente como uma empresa independente. Até então, ela operava somente com imóveis da incorporadora, mas daqui por diante o serviço será aberto a todo o mercado imobiliário. Por meio da Housi, o usuário pode alugar um imóvel totalmente pela internet, sem a burocracia do sistema convencional, como assinatura de contratos de longa duração, preenchimento de documentos em papel e a necessidade de fiador ou seguro-fiança. Com alguns poucos cliques no celular ou notebook, como se estivesse escolhendo um filme na Netflix, a pessoa pode locar um imóvel pelo período que quiser e se mudar a qualquer momento.

House as a Service

Com diárias que variam entre R$ 136 e R$ 250 aproximadamente, os imóveis compactos já vêm mobiliados e equipados com serviços de TV a cabo, internet e wi-fi. Ao fazer, digamos assim, a assinatura de um apartamento, o morador tem à disposição diversos tipos de serviço, como o de limpeza, troca de roupa de cama, encanador e pode se ver livre de algumas tarefas que tomam tempo no dia a dia. “A ideia é você nunca mais precisar falar com alguém da NET, por exemplo, porque a gente resolve tudo. Temos os meios de pagamento, garantias e a pessoa pode usar o imóvel pelo tempo que quiser. Pode ser por um dia, uma semana ou três anos. Ela também tem a possibilidade de se mudar para outro apartamento a qualquer momento”, afirma Frankel.

Além disso, o morador tem acesso a carros, patinetes e bicicletas compartilhados, serviços de delivery de comida 24 horas por dia, coworking, academia, ferramentas, lavanderia e cozinha. A plataforma também tem uma agenda de eventos para “a comunidade Housi”, como aulas de ioga, funcional, passeios de patinete e happy hours. Outro benefício do pacote é inspirado no modelo da rede Smart Fit, que permite aos seus clientes frequentar qualquer academia da rede, não apenas aquela em que fez sua matrícula. Assim, uma pessoa que mora num apartamento em Pinheiros e trabalha na Paulista, por exemplo, poderá usar a academia de ginástica num empreendimento Housi nessa região. Essa flexibilidade busca atender a diferentes necessidades dos clientes, como mudança de trabalho ou o plano de ficar apenas um período específico numa região ou cidade, algo muito comum entre executivos e alunos de pós-graduação.

A plataforma cresce com rapidez. Atualmente, são fechadas cerca de 10 mil locações por mês, a maioria com um tempo de permanência superior a 30 dias. O índice de satisfação dos usuários é de 90%, com uma ocupação de 83% nos dias de semana, segundo Frankel. A meta é que a carteira de imóveis sob a gestão da Housi supere 11 mil unidades para locação até o fim de 2019.

“A estratégia digital permite escalarmos rápido. O plano é levar nossa visão e gestão de moradia para o Brasil todo, começando pelas grandes cidades. Vamos atuar em parcerias regionais com construtores e proprietários que conheçam a fundo o seu mercado”, diz. “Nosso maior sonho é conectar pessoas a experiências únicas, transcendendo a moradia para um ecossistema social colaborativo.”

Reinventando a Cidade

Formado em engenharia civil, teve uma longa jornada pelo mundo da tecnologia até chegar a seu novo momento no mercado imobiliário. Ainda estudante universitário, ficou fascinado com o mundo das empresas pontocom, que borbulhava em 1997. Foi quando arrumou emprego numa corretora digital e logo depois abriu a Banana Games, desenvolvedora de jogos e diversões digitais. Bombando com produtos, como o Show do Milhão, que virou programa de TV com Silvio Santos, chegou a ter 100 funcionários e uma pressão de custos que ensinou muito ao jovem empresário o preço do mundo digital.

Acabou vendendo o negócio e se voltou para o mercado de origem da família. Alexandre traz o sobrenome Lafer, uma das famílias fundadoras da fabricante de papel e celulose Klabin, e Frankel, ramo familiar que se envolveu mais com a construção civil. Acabou trabalhando com o pai Abrão, dono da construtora Reid. As diferenças culturais renderam novas lições de vida ao empresário – e insights que o levaram a abrir o próprio negócio imobiliário, com uma filosofia bastante inovadora para os padrões brasileiros.

Construtora possui 61 empreendimentos e alcançou R$ 1,23 bi em Valor Geral de Vendas em 2018

Assim nasceu a Vitacon, em 2009, com um investimento inicial de R$ 50 milhões. O primeiro empreendimento resultou em R$ 150 milhões em vendas, o suficiente para financiar os projetos seguintes. O prédio foi erguido na Vila Olímpia, numa região de São Paulo onde praticamente só havia edifícios comerciais. O conceito – novo no país naquela época – era o de construir apartamentos bem pequenos, com ótima localização e um preço que cabia no bolso de um público muito mais amplo do que aquele, com o qual as demais incorporadoras trabalhavam. O mercado ainda sofria os efeitos da quebra do Lehman Brothers e a grande crise global de 2018. Frankel foi chamado de louco. “O que eu mais ouvia naquele momento é que seria uma loucura eu, pequenininho, competir com construtoras maiores, capitalizadas por IPOs, no meio de uma crise brava e fazendo ‘quitinetes’, como eles diziam”, diz.

Mas, ao melhor estilo startup, Frankel botou seu MVP de concreto na rua, se arriscou, validou a ideia e hoje tem uma companhia consolidada. São 61 prédios na carteira, dos quais 52 entregues e 9 em construção. O Valor Geral de Vendas (VGV) em 2018 foi de R$ 1,23 bilhão. Agora, o objetivo é acelerar a transformação de seu portfólio de negócios e fazer decolar a plataforma digital, a Housi. “Somos uma construtora e por isso falávamos de tijolo. Hoje, falamos muito mais de bytes. É muito louca essa transformação. Acabei voltando às origens.”

Texto: Clayton Melo
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