Foto Estadão

A cidade de São Paulo tem uma ausência crônica de áreas de lazer. Apenas 8 dos 31 distritos paulistanos atingem o índice adequado, de 15 metros de área verde por habitante. Essa carência tem um impacto direto na qualidade de vida e na maneira como os moradores se relacionam com a cidade. Mas, em meio a esse caos urbano, que às vezes parece fazer de São Paulo um lugar inabitável, aparecem algumas boas iniciativas. A mais recente delas foi a decisão anunciada pelo prefeito Bruno Covas de transformar o Elevado João Goulart, o Minhocão, em um parque urbano.

Uma iniciativa como esta tem um poder de divulgação e atração de turismo e receitas para cidade. Marcos turísticos como Highline, Empire State Building, Torre Eiffel e tantos outros monumentos têm o poder de colocar cidades em evidência. O “awareness” de um símbolo disruptivo trará enormes benefícios, como aumento de receitas turísticas, eventos e empregos para a cidade.

Às noites e aos finais de semana, o Minhocão fechado ao trânsito já funciona como um parque. Seus 2,5 km ficam tomados de corredores, ciclistas, crianças com bolas e cachorros, famílias, artistas de rua. Esse movimento todo acontece mesmo sem nenhuma estrutura, apenas com o espaço livre de carros e de fumaça. Com uma infraestrutura adequada, o local pode se tornar uma opção inestimável de convivência.

A solução para São Paulo passa por uma reinvenção da maneira de se relacionar com a cidade. Há sete anos, no livro Como Viver em São Paulo sem Carro, defendi que os paulistanos deveriam, à medida do possível, abandonar o carro para descobrir a sua cidade e melhorar sua qualidade de vida. A chegada de um novo parque na região central da cidade confirma essa hipótese que sempre defendi: as pessoas querem deixar o carro porque aprendem a usar e viver a cidade de outro jeito.

A novidade das bicicletas e patinetes elétricos de aluguel, o aumento de quilômetros de ciclovias e de espaços para pedestres e o sucesso de empreendimentos imobiliários com espaço otimizado, áreas de convivência e proximidade de estações de transporte público reforçam essa tendência. O paulistano quer viver em sua São Paulo, seu bairro, sua vizinhança. Com menos deslocamentos e mais qualidade de vida. O futuro é viver perto.

Uma pesquisa, ainda inédita, feita pelo Alexandria Big Data para a Housi (plataforma digital de moradia on demand ), mostra que os paulistanos adultos estão mais dispostos a abrir mão do carro para passar menos tempo no trânsito e ficar mais tempo com a família. Para 62,8% dos respondentes entre 18 a 45 anos, é correta a afirmação: “O verdadeiro privilégio é ter tempo e não precisar de carro”. Entre os mais velhos, acima de 45 anos, esse número sobe para 73,4%. Sobre a frase: “meu sonho é não precisar usar o carro no dia a dia”, 44.4% dos jovens concordaram; contra 56,8% de concordância dos mais velhos.

Para a maioria dos pesquisados, o carro não é uma necessidade fundamental na vida. Entre os jovens sem filhos, a dependência do carro é ainda menor. E esse é um caminho sem volta. A economia compartilhada oferece uma série de serviços de transporte e moradia que facilita e melhora as nossas vidas -e talvez isso explique a queda na emissão de carteiras de habilitação, principalmente entre os jovens de 18 a 25 anos. Segundo o Denatran, a queda de emissões de CNHs nessa faixa da população foi de 20% entre 2014 e 2017.

O percurso é longo. A cidade precisa melhorar o transporte público, ter mais acessibilidade, calçadas sem buracos, ruas bem pavimentadas, serviços de educação, saúde e segurança de melhor qualidade e áreas públicas de lazer para a população. Mas o Parque Minhocão é um símbolo importante da São Paulo que queremos. E por isso precisa ser abraçado. O paulistano viverá melhor quando tiver mais parques abertos e menos vias expressas congestionadas.

*Alexandre Lafer Frankel é fundador e CEO da Vitacon. Faz parte da diretoria do Secovi, é ativista pela mobilidade e autor de três livros da série Como Viver em São Paulo Sem Carro

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