Minha planta, minha vida

Se no passado poucos apartamentos em São Paulo dispunham de um terraço, hoje a varanda é um item quase imprescindível para quem busca um imóvel na capital. Da mesma forma, se apartamentos sem quarto de empregado eram uma exceção à regra, atualmente as incorporadoras aboliram quase completamente esse aposento. São estas algumas mudanças que as plantas de apartamentos sofreram nos últimos anos. E nenhuma das alterações se dá ao acaso.

“Os apartamentos sofrem o eco das mudanças da sociedade”, afirma a presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA), Miriam Addor.

Costumes. De acordo com o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) especializado em setor imobiliário Alberto Ajzental, as mudanças nas plantas de apartamentos geralmente ocorrem por dois motivos: legislação e novos costumes por parte da própria sociedade.

“O aumento da inclusão de varandas nos apartamentos é um exemplo de mudança decorrente de nova legislação”, diz ele. Uma lei do ano 2000 determina que as sacadas de apartamentos não são incluídas como área computável do imóvel.

“As incorporadoras se aproveitaram dessa legislação para aumentar o tamanho das varandas e lucrar com isso, já que não é um espaço que não poderia ser adicionado a outra área da casa”, diz o diretor comercial do Viva Real, Rafael Fiorotto. Assim, as empresas conseguiram transformar o que antes era raro em um item de desejo das pessoas.

Agora, empreendimentos voltados a diferentes classes sociais incluem no projeto varandas gourmet – até em imóveis do programa do governo Minha Casa Minha Vida. “A moda gourmet contempla as classes baixas também e, atualmente, a varanda é o espaço mais aproveitado da casa”, afirma Dante Seferian, presidente da Danpris, uma das construtoras que desenvolvem esse tipo de projeto.

A ampliação e popularização dos terraços fez com que o espaço passasse a ser usado para fins versáteis. Antes eram apenas um local para tomar um ar ou contemplar o dia, as varandas hoje são, em muitos casos, uma extensão da sala.

Sem divisão. “Há até quem deseje eliminar as portas de vidro que dividem a sala da varanda”, diz o coordenador do Sindicato da Construção de São Paulo (SindusConSP), Yorki Estefan.

Como atualmente muitos dos terraços incorporam o caráter gourmet, ou seja, são pensados para apreciar a gastronomia, era interessante que houvesse uma integração da varanda com a cozinha. “As cozinhas estão ficando mais próximas das sacadas, de modo que não é necessário cruzar toda a sala com alimentos e bebidas”, diz Ajzental.

Esse arranjo com sala, cozinha e varanda adjacentes foi a solução encontrada pelas incorporadoras para tornar as plantas mais práticas e ainda caber no bolso do consumidor.

CASAE

A designer Simone Beltrame, de 39 anos, optou por um apartamento nesse estilo quando se mudou para São Paulo. No imóvel, de 34 m², o que divide a sala e a cozinha é apenas um sofá. “Encontrei apartamentos maiores pelo mesmo preço, mas preferi o meu, por ser mais novo, mais moderno”, diz ela.

Miriam Addor afirma que as referências do que é considerado um apartamento grande mudaram nos últimos 50 anos. “Na década de 1970, um apartamento de 70 m² era considerado pequeno. Atualmente, é considerado grande. Dão jeito de colocar até três quartos nessa área”, diz a arquiteta.

As causas para a redução do tamanho dos imóveis, segundo o presidente da incorporadora Vitacon, Alexandre Frankel, passam por mudanças no comportamento.

“As pessoas desenvolveram novos hábitos, como comprar pela internet, ou lavar roupa fora de casa. Essa mudança global permite também uma mudança radical na planta dos imóveis”, defende. A Vitacon é conhecida por erguer prédios com unidades de tamanho reduzido e com oferta de serviços.

Em média, a área privativa das plantas sofreu redução de 26% na última década, de acordo com a Viva Real. A diminuição também tem a ver com o fator financeiro. “Oferecer imóveis mais acessíveis e fáceis de financiar é essencial para que as pessoas possam comprar e o mercado siga ativo”, diz Seferian, da Danpris. A situação apertada das famílias também contribui para a obsolescência dos quartos de empregada nos apartamentos. “Hoje, são poucas as famílias que têm recursos para arcar com um funcionário que durma no trabalho”, lembra Fiorotti.

A presidente da AsBEA lembra que as mudanças na regulamentação de empregados domésticos também tiveram efeito nesse fenômeno. “Depois que a emenda constitucional relacionada aos domésticos foi aprovada, contratar um funcionário ficou mais rígido e custoso, especialmente se ele(a) dorme no emprego. Isso tornou ainda mais obsoleto o quarto de empregado”, diz Miriam.

Em empreendimentos que ainda incluem quartos de empregada no projeto, os espaços são frequentemente usados para outro fim. “Muitos usam cômodos que originalmente são destinados para algo específico com outra finalidade, como fazer do quarto de empregada um escritório”, diz Ajzental.

Área comum. As áreas comuns do prédio também mudaram. A falta de área de serviço em apartamentos é suprida, em muitos condomínios, por máquinas de lavar e secar comunitárias, por exemplo.

No caso de Simone, ela lava as roupas na lavanderia comum do prédio, já que não tem área de serviço no apartamento. “Essa nova utilização mais inteligente e usual permitiu as mudanças na planta. Quando começam a usar a área comum de forma mais sensata, é possível sustentar alterações consistentes na planta do apartamento, com a vantagem de pagar menos no IPTU e no condomínio”, alega Frankel.

‘As pessoas querem flexibilidade no layout do apartamento’

Abrir mão de um quarto no apartamento para ampliar a sala, ou dispensar o closet a fim de ter uma área de serviço maior. Segundo o coordenador do Comitê de Tecnologia e Qualidade do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusConSP), Yorki Estefan, é esse tipo de autonomia que os consumidores procuram quando se trata de imóveis. “Hoje, o comprador quer flexibilidade muito maior no layout interno do apartamento. Ele quer juntar o terraço com a sala, ou cozinha com o terraço”, diz ele.

Especialmente em espaços mais reduzidos, como muitos dos empreendimentos que têm sido desenvolvidos nos últimos anos, a liberdade para mexer na planta é muito bem vinda. “Acredito que até mesmo o caso de um cliente que queira adquirir dois apartamentos para fazer um só, maior, é válido”, afirma Estefan.

Para o professor da FGV Alberto Ajzental, a integração entre cômodos, observada nos apartamentos de menor porte contribui para essa flexibilidade. “Antigamente, a TV ficava na sala, que era onde a família se reunia. Hoje, cada um tem sua própria TV, seu próprio computador. A sala ficou menor, e as pessoas ficam com mais autonomia”, diz ele.

Os apartamentos atuais, que tem média de área privativa de 60 m² refletem o momento que a sociedade tem vivido. “O que observamos é que a forma de morar das pessoas vêm se tornando cada vez mais prática, e esse estilo de vida também requer uma resposta das incorporadoras”, diz a presidente da Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (AsBEA), Miriam Addor. Ela acredita que a integração dos cômodos é também fruto de fatores tácitos.

“Um dos motivos que sustentam a consolidação da cozinha aberta no Brasil, por exemplo, é que as pessoas têm procurado comer de forma mais saudável, sem tanta fritura – o que inviabilizaria essa integração.”

A arquiteta defende que esse tipo de planta, com cozinha americana, amplia e facilita a convivência entre quem vive no imóvel.

O CEO da incorporadora Vitacon, Alexandre Frankel, avalia o que influencia no cenário atual do mercado imobiliário. “Atualmente, a pessoa que busca apartamento quer melhorar a vida em todos os aspectos. Não quer perder tempo no trânsito e ter muitos afazeres domésticos”, diz ele.

“Os valores e a transformação que as pessoas buscam hoje são outros. A liberdade faz parte disso. A sociedade evolui, e as plantas evoluem junto.”

 Fonte: O Estado de S. Paulo

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